Sábado, 19 de Abril de 2008

.:Entrevista a um Homossexual (Gay):.

Objectivo:

 

«     Conhecer melhor os modos de vida dos homossexuais e saber quais os principais problemas com que se deparam no seu dia-a-dia.

«     Não serão retidos e/ou divulgados elementos que ponham em causa o anonimato das respostas.

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Perguntas:

 

1.     Fale um pouco de si: idade, actividade profissional, local de residência, origem geográfica (meio rural ou urbano/norte ou sul), origem familiar (família pobre/rica/de comerciantes) …

 

            Tenho 27 anos, trabalho num bar (em part-time), mas ando à procura de trabalho na minha área – design gráfico. Actualmente, moro em Lisboa, embora seja do Ribatejo. A minha família é de classe média (a minha mãe trabalha como governanta e o meu pai é gerente numa oficina de mecânica).

 

2.     Quando é que percebeu que a sua orientação sexual era esta?

 

            Percebi que era homossexual por volta dos 11 anos de idade, talvez um pouco mais cedo. Sempre me achei “diferente” do resto dos rapazes, porém, só consegui “dar um nome” a esta “diferença” por volta dos 11 anos. Ao perceber a minha orientação sexual, senti uma espécie de confirmação de uma suspeita. Mais tarde, ao aperceber-me do impacto social que esta situação causaria, comecei a ter medo e vergonha. No entanto, nunca reprimi a minha sexualidade, ou seja, a nível pessoal, aceitei-a muito bem.

 

3.     Como lida com a sua homossexualidade no dia-a-dia (assumido ou não, perante quem/relação estável ou não, escondida ou aberta/situação no trabalho)?

 

            Eu sou um homossexual assumido para com os familiares, os amigos e os colegas de trabalho. Assim, não tento esconder a minha homossexualidade, porém, não a demonstro, na medida em que sou contra exibicionismos gratuitos.

            Neste momento, não me encontro em nenhuma relação, mas a anterior era “oculta”, uma vez que o meu companheiro não se assumia como homossexual.

            No local de trabalho, falo abertamente com os meus colegas acerca da minha orientação sexual, no entanto, não me exponho, no sentido em que não falo abertamente com todos sobre isso, mas apenas com amigos. Infelizmente, já me aconteceu informar um amigo de que sou gay e este decidir afastar-se de mim… Possuo ligeiros maneirismos não exagerados, porém, quem olhar para mim dirá que sou um rapaz gestualmente expressivo, nada mais.

 

4.     A sua família tem ou não conhecimento? Se sim, qual foi a reacção da mesma?

 

            A minha família mais próxima, isto é, pais e irmãos, sabe e reagiu bem, à excepção do meu pai, que me pôs fora da sua casa (os meus pais estão divorciados). Não houve qualquer tipo de violência, física ou verbal, por parte dele, apenas o silêncio e o afastamento (não comunicamos há já oito anos). Alguns dos meus primos e tios também têm conhecimento da minha homossexualidade e aceitam plenamente.

            Porém, a maioria das famílias dos meus amigos homossexuais tem reacções más que, com o passar do tempo, tendem a melhorar, mas, obviamente, também existem casos em que os familiares aceitam muito bem. No entanto, uma grande parte dos meus amigos ainda não contou, sequer, aos pais, na medida em que temem, por vezes, uma possível rejeição por parte dos mesmos.

 

5.     Se possível, caracterize a comunidade (ou população) homossexual.

 

            A comunidade homossexual é tal e qual a heterossexual: também é constituída por promíscuos e pessoas fiéis, indivíduos simpáticos e antipáticos, com gostos diferentes, ou seja, no seio desta existe toda uma panóplia das mesmas personalidades que criam a população heterossexual… A única diferença está no facto de nós, homossexuais, amarmos/sentirmo-nos atraídos por pessoas do mesmo sexo.

            No entanto, na verdade, há algo que distingue a comunidade LGBT – Lésbica, Gay, Bissexual e Trangender – (este termo é mais correcto que “comunidade homossexual”) da heterossexual, relativo à questão da imagem e da superficialidade, que está mais assente na população LGBT, embora isso também se verifique na comunidade heterossexual. Estas pessoas (felizmente, um grupo restrito) julgam os outros apenas pela sua imagem e representam as que gostam de “dar nas vistas”. Contudo, é possível conviver durante muitos anos com um indivíduo homossexual e nunca nos apercebermos da sua orientação sexual. Mas há, também, aqueles homossexuais que “dão nas vistas” (por exemplo, na forma de andar e falar – os tais maneirismos) e não o fazem de propósito, isto é, são assim “por natureza”, apesar de muita gente, erradamente, alegar que agem assim propositadamente.

 

6.     Na sua opinião, como é actualmente encarada a homossexualidade pela população em geral?

 

            A população em geral tolera: apesar de haver muita gente preconceituosa, a maioria não insulta, até porque muitos indivíduos já sabem que a homossexualidade não é uma opção sexual nem uma doença. Grande parte da comunidade prefere que os homossexuais não demonstrem afectos em público, o que, para mim, é injusto, uma vez que um casal heterossexual evidencia, sem problemas, “carinhos” em público. Assim, simultaneamente, há e não há tolerância... Efectivamente, muitas pessoas ainda acreditam que, numa relação homossexual, tem de haver, obrigatoriamente, alguém que desempenhe o papel feminino e alguém que exerça o papel masculino; que todos os gays são sensíveis e detestam desporto; que todas as lésbicas são feias e fortes; que os bissexuais são homossexuais não assumidos...

            A homossexualidade, até 1973, era considerada doença psicológica, o que faz com que muitos idosos ainda pensem assim, mesmo aqueles que a aceitam ou toleram. Então, passou a ser encarada como "opção sexual" e, actualmente, “orientação sexual”, que, a meu ver, não define claramente como nós, no geral (ou seja, enquanto humanos), somos. Na minha opinião, tanto a hetero como a homossexualidade são orientações emocionais, psicológicas e sexuais.

            A discriminação sobre a comunidade LGBT, infelizmente, ainda é alta, porém, actualmente, ocorrem menos demonstrações de violência. No entanto, no “interior”, esta ainda é muito elevada, mas acho que muitos indivíduos não demonstram a sua antipatia porque a sociedade é cada vez mais sensível em relação às minorias. Algumas pessoas vêem a homossexualidade como algo antinatural (apesar de estar provado que a maioria dos animais tem práticas homossexuais); outras acham-se superiores a tal orientação, isto é, uma vez que a heterossexualidade representa a norma, em termos de sexualidade humana, e a homossexualidade existe numa percentagem menor, alguns heterossexuais pensam-se melhores; certas pessoas discriminam porque não conseguem lidar com a sua própria homossexualidade (caso dos homossexuais “reprimidos”). Neste momento, não nos encontramos no ideal duma “sociedade para os homossexuais”, como é o caso da Dinamarca, mas penso que estamos no caminho certo para uma maior igualdade! Realmente, os homossexuais deveriam gozar dos mesmos direitos que os heterossexuais, pois vivemos numa democracia. Todavia, isso deveria acontecer com todos os cidadãos, isto é, independentemente da sua cor, sexo, sexualidade, crença... Uma sociedade que não nos “condenasse” seria muito agradável! Tentar mudar as mentalidades mais “arcaicas” passa por, acima de tudo, educar, ou seja, sensibilizar as pessoas e desmistificar as informações falsas. Penso também que a discriminação acontece e se modifica por fases/ciclos... Esta está muito relacionada com as diferentes gerações, acho eu... Esta nova geração, portanto, os mais jovens, discrimina muito, mas a dos idosos também. Porém, estas discriminações têm características diferentes: os idosos discriminam porque desconhecem (e o ser humano teme o desconhecido), enquanto que os novos discriminam por acharem a homossexualidade algo nojento ou antinatural...

            Nem todos os homossexuais optam por andar de mão dada com o(a) companheiro(a), e isto por diversas razões: um dos membros do casal pode ser “não assumido” (ou ambos); quando se encontram em locais que desconhecem, receiam possíveis ataques; tal como eu, podem não gostar de mostrar afecto em público, entre tantos outros motivos.

            Eu já assisti a insultos destinados a homossexuais, mas estes são lançados tal e qual como comentários negativos a pessoas baixas, altas, magras, gordas... Tive ainda conhecimento do caso de um rapaz cujos supostos melhores amigos encontraram perto de um bar “misto” e agrediram fisicamente. Pelo que soube, este foi atacado apenas pelo simples facto de estar a falar com um indivíduo assumidamente gay...

 

7.     Já alguma vez se sentiu discriminado por causa da sua orientação sexual? Fale-nos de alguma situação pela qual tenha passado.

 

            Sim, já me senti discriminado por ser homossexual, no entanto, não de forma directa. Passo a explicar: na escola (“liceu” – 10.º ao 12.º anos), a meio de um debate sobre discriminação nas instituições escolares, assumi-me (nem sei bem de que forma o fiz) como homossexual. Mais tarde – já na faculdade –, soube que a minha turma, desde o dia do tal debate, passou a proteger-me de todas as pessoas que, escondidamente, me ofendiam, explicando aos criticadores que não era correcto caluniarem-me pela minha orientação sexual.

 

8.     O que pensa acerca das diferentes posições religiosas relativamente à homossexualidade?

 

            As posições religiosas, relativamente à homossexualidade, no geral, estão mal fundamentadas. Penso que se perdeu muito das origens das diversas religiões... Por exemplo, no caso da Igreja Cristã, a pregação do respeito e do amor ao próximo já não se encontra tão patente. As religiões tornaram-se demasiado activas a nível da política, de maneira que lhes seria bastante benéfica uma reforma qualquer...

            Sei que o Cristianismo, de certa forma, tolera a homossexualidade, desde que esta não seja praticada; o Islamismo condena e chega mesmo a queimar homossexuais; o Judaísmo também condena e excomunga; o Budismo aceita esta orientação sexual, na medida em que a vê como uma forma de “expressão da alma”; o Taoísmo – movimento religioso chinês – aceita, uma vez que também permite todas as outras formas de orientação sexual; desconheço a posição do Protestantismo, no entanto, acho que deve ser minimamente tolerante relativamente à homossexualidade, talvez como forma de “provocar” os cristãos.

 

9.     Como se sente relativamente ao facto de o casamento civil entre homossexuais, em Portugal, não ser permitido?

 

            Na minha opinião, o casamento civil entre homossexuais devia ser permitido. Os heterossexuais têm a opção de casar ou não, enquanto os homossexuais não possuem o direito de realizar essa escolha... Eu quero poder dizer "Não me quero casar!", e não "Não me posso casar...". Dessa forma, nós, homossexuais, teríamos a hipótese de casar e desenvolver uma vida em conjunto, de forma aberta e legal. E, muito importante, em caso de doença/acidente, poderíamos ir visitar o nosso cônjuge ao hospital, tal como receber heranças e comprar imóveis conjuntamente.

            Há inúmeras vantagens que nos são facultadas num casamento e que não são numa união de facto... Falando ainda do caso de recebimento de heranças, imaginemos que o meu namorado morre e me deixa, em testamento, uma casa. Estando eu apenas em união de facto com ele, a família directa (pais e irmãos) possui maior poder de decisão que eu. Logo, se essas pessoas não quiserem que eu fique com a tal casa, eu não tenho poder suficiente para discordar. Contrariamente a esta situação, em caso de casamento civil, eu passo a deter maior “autoridade”, uma vez que também sou familiar directo (segundo a lei, cônjuge à pais à irmãos).

 

10.      E em relação à adopção por homossexuais não ser, também, permitida?

 

            A minha opinião, relativamente a este assunto, é um pouco incerta... Penso que, neste momento, Portugal ainda não está socialmente apto para que a adopção por homossexuais seja aceite, mas é óbvio que há pessoas que compreendem que dois homens ou duas mulheres podem criar uma criança tão bem como um homem e uma mulher. Porém, a maioria da população portuguesa ainda possui, a nível deste tema, a mentalidade subdesenvolvida.

            Eu sou a favor da adopção por homossexuais, pois tenho plena consciência de que é algo que funciona, uma vez que conheço casais, no nosso país, em que tal situação decorre naturalmente.

            Assim, acho que, por enquanto, esta lei não deve ser alterada, mas, possivelmente, corrigida (ou seja, contendo passagens directamente relativas a casais LGBT, como a possibilidade de uma avaliação da situação do casal homossexual, de modo a que se averigúe a existência das condições necessárias à educação de uma criança, e, talvez, a verificação da presença regular de um indivíduo do sexo masculino/feminino (consoante o caso)).

 

11.       O que pensa que se poderá fazer para facilitar a integração social dos homossexuais?

 

            A meu ver, é necessário condenar as práticas preconceituosas que ocorrem em ambientes mais pessoais (grupo de amigos, local de trabalho, escola) e educar a população no sentido de uma maior sensibilização das diferenças de cada um. E há também aquelas simples acções que todos nós podemos efectuar, inclusivamente os heterossexuais, explicando, a amigos e conhecidos, que é errado discriminar.

 

Conclusões:

           

            Após a realização desta entrevista, concluímos, novamente (tendo em conta o primeiro testemunho, de uma lésbica), que a revelação da orientação sexual homossexual se faz, principalmente, a amigos mais íntimos e familiares. Compreendemos que, aquando desta revelação a familiares, a reacção nem sempre é positiva, porém, na maioria das vezes, tende a melhorar.

            Aprendemos que o melhor termo para designar a população homossexual é “comunidade LGBT – Lésbica, Gay, Bissexual e Trangender”.

            Percebemos que, na maior parte dos casos, a sociedade tolera mais do que aceita, e que a discriminação (segundo o entrevistado, ainda elevada) se desenvolve, muitas vezes, no interior das pessoas, podendo nunca chegar a ser exteriorizada. O inquirido mostra-se confiante, na medida em que é da opinião que a sociedade portuguesa, neste momento, avança para o sentimento de uma maior igualdade pelas minorias (como é o caso dos indivíduos homossexuais). Apreendemos também que o facto de muitos idosos, na altura em que realizámos o inquérito à população, encararem a homossexualidade como uma doença, se deve ao facto desta, até 1973, ter sido considerada uma doença psicológica (inclusive pela OMS – Organização Mundial de Saúde).

            Este entrevistado, comparativamente com o anterior, demonstrou uma maior percepção de várias posições religiosas relativamente à homossexualidade. Através da resposta a esta pergunta (oitava), foi-nos possível concluir que as diversas religiões encaram de forma diferente a comunidade LGBT, isto é, tendo em conta os princípios pelos quais se guiam.

            Mais uma vez, “fitámos” a lei que proíbe o casamento civil entre gays e lésbicas como uma enorme arbitrariedade contra os casais homossexuais, uma vez que, na nossa opinião, este não se trata de um assunto dúbio, ao contrário do tema “adopção por homossexuais”.

            O inquirido mencionou algo bastante importante e útil para a facilitação da integração social da população LGBT: alguns de nós, enquanto cidadãos que não discriminam, temos o dever de alertar os que, de certa forma, excluem os homossexuais, para que não o façam.


publicado por aletra_h às 16:49
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.:Entrevista a um Homossexual (Lésbica):.

 

Objectivo:

 

 

«     Conhecer melhor os modos de vida dos homossexuais e saber quais os principais problemas com que se deparam no seu dia-a-dia.

«     Não serão retidos e/ou divulgados elementos que ponham em causa o anonimato das respostas.

 

Perguntas:

 

1.     Fale um pouco de si: idade, actividade profissional, local de residência, origem geográfica (meio rural ou urbano/norte ou sul), origem familiar (família pobre/rica/de comerciantes) …

 

            Tenho 18 anos, sou estudante (no ramo da informática) e vivo na Madeira, num meio urbano. Provenho de uma família da classe média. A minha mãe é funcionária pública e o meu pai trabalha numa loja.

 

2.     Quando é que percebeu que a sua orientação sexual era esta?

 

            Penso que desde sempre me apercebi que era “diferente”... Cheguei a sentir-me atraída por rapazes, namorando mesmo com alguns. Porém, sentia que faltava qualquer coisa... Há cerca de uns 5 anos, decidi deixar de me enganar a mim própria e de enganar os outros, passando a aceitar as coisas tal como são. Mas não foi uma decisão fácil, na medida em que era ainda muito nova (tinha sensivelmente 13 anos).

            Inicialmente, senti o meu “coming out” como um confronto emocional: por um lado, desejava muito estar com mulheres, no entanto, por outro lado, pensava que aqueles sentimentos eram errados e maus, tanto para mim como para a sociedade. Felizmente, decidi conversar mais com alguns dos meus amigos (também eles homossexuais) acerca do que me preocupava e estes esclareceram-me muitas coisas. Assim, fui conhecendo novas pessoas e tendo outros interesses.

            Actualmente, não me arrependo minimamente de ter tomado esta decisão (de me assumir como homossexual), em parte porque duvido que suportasse permanecer na mentira por muito mais tempo.

 

3.     Como lida com a sua homossexualidade no dia-a-dia (assumida ou não, perante quem/ relação estável ou não, escondida ou aberta/situação no trabalho)?

 

            Neste momento, sinto que a minha orientação sexual é apenas mais uma característica presente em mim, exactamente da mesma forma que existem pessoas morenas, ruivas, louras, magras, gordas, altas, baixas, de raça negra... Ou seja, vejo a homossexualidade como uma simples condição existente na vida de certas pessoas.

            Tenho um relacionamento estável (que dura há 3 meses). A minha mãe tem conhecimento da minha relação homossexual. Aliás, ela e a minha namorada já se conhecem e dão-se muito bem! Os meus amigos mais próximos também sabem e sentem-se perfeitamente bem com a situação.

            No meu local de trabalho, ou seja, a escola, estou somente a concluir uma disciplina, o que faz com que eu conviva muito pouco com os meus colegas (com os quais me encontro apenas duas vezes por semana), logo, mal os conheço e, portanto, o pouco tempo que passamos juntos não é suficiente para que eu me sinta à vontade para lhes falar da minha homossexualidade... De qualquer das maneiras, nunca tive um vasto rol de amigos, mas os poucos que tinha, na altura em que os esclareci acerca da minha orientação sexual, preferiram afastar-se... Então, desses, restaram duas amizades heterossexuais, que constituem, presentemente, as minhas duas melhores amigas.

            Após a minha “revelação”, fui conhecendo, sobretudo, pessoal homossexual, que, como seria de esperar, aceita plenamente o facto de também eu ser homossexual.

 

4.     A sua família tem ou não conhecimento? Se sim, qual foi a reacção da mesma?

 

            Assumi-me como lésbica à minha mãe, há cerca de 4 anos, sendo ela a única da família que conhece a minha verdadeira orientação sexual. Ela tem sido excelente comigo, mas eu sei que, infelizmente, nem todas as “progenitoras” reagem bem... Inicialmente, a minha mãe queria que eu consultasse um psicólogo, porque, na verdade, ela desejava que eu “deixasse de ser assim”. No entanto, com o passar do tempo, acabou por aceitar a minha homossexualidade. Quanto ao meu pai, a nossa relação não é muito boa, logo, não faço intenções de lhe contar. Se ele, um dia, eventualmente, me perguntasse se sou ou não lésbica, eu afirmaria que sim sem quaisquer problemas, mas sei que nunca o fará e, portanto, vou deixando as coisas como estão.

            A minha mãe só tem uma irmã, que tem um filho. Eu, tal como ele, sou filha única e, como tal, o meu primo e eu passamos muito tempo juntos. Ando a pensar em falar-lhe acerca da minha orientação sexual, mas temo que, tendo em conta a sua mentalidade (ele tem apenas 15 anos), seja cedo demais.

            Tenho conhecimento que um dos meus melhores amigos é constantemente agredido pelo pai, que se recusa a aceitar ou, pelo menos, tolerar a orientação sexual do filho. Quando penso neste caso, pergunto a mim mesma: “mas quem é que este homem pensa ser para se achar no direito de julgar o filho pelo amor que este tem por alguém, ainda que essa pessoa seja do mesmo sexo que o seu descendente?”. Como diz a minha mãe, “o importante é a felicidade dos nossos filhos!”. Sei também de outras situações em que alguns conhecidos meus chegaram a ser postos fora de casa...

 

5.     Se possível, caracterize a comunidade (ou população) homossexual.

 

            Em termos de aspecto, a maioria das pessoas homossexuais que conheço vai de encontro ao estereótipo «os homens têm tendência a ser mais “femininos” e as mulheres mais “masculinas”». No entanto, penso que convivo mais com as chamadas “excepções”, uma vez que, observando a generalidade da comunidade homossexual, este preconceito não se verifica.

            Alguns gays e lésbicas que conheço apresentam, especialmente em conversas que têm com pessoas heterossexuais, uma atitude um pouco defensiva, isto porque ou são habitualmente discriminados, ou têm medo que alguém possa informar a sua família relativamente à sua orientação sexual (já que muitos dos homossexuais com quem me dou ainda não se assumiram aos familiares).

            De resto, a população homossexual é idêntica à heterossexual: os gays e as lésbicas também riem, choram, amam, sofrem, são humanos...

 

6.     Na sua opinião, como é actualmente encarada a homossexualidade pela população em geral?

 

            O “defeito” da sociedade em geral, relativamente à visão que tem da homossexualidade, é encarar o “diferente” como anormal. O problema de muitas pessoas é que, quando vêem algo diferente da norma/daquilo a que estão habituadas, “apontam o dedo”, criticam negativamente, em vez de tentarem aceitar, isto é, não percebem a população homossexual e, pior ainda, não querem tentar perceber, o que nos magoa profundamente. Assim, idealizo uma colectividade que veja os homossexuais como pessoas que também trabalham de modo a puderem pagar as contas no final do mês, que também estudam para tentarem “ser alguém”, que também amam e são amadas... Não entendo o porquê de sermos tratados de maneira diferente pelo simples facto de nos sentirmos física e emocionalmente atraídos por uma pessoa do mesmo sexo... Ou seja, se a forma de amar é a mesma, porquê a discriminação?

            Na minha opinião, há uns anos atrás, a discriminação recaía principalmente sobre os indivíduos de raça negra. Actualmente, apesar de ainda se verificarem injustiças contra os negros, os principais discriminados somos nós, a comunidade homossexual. Provavelmente, daqui a uns anos “inventam” qualquer outra coisa para apontarem como “errado”.

            Depois existem ainda os homossexuais homofóbicos (por acaso, conheço alguns), que, não aceitando sentirem o mesmo que os homossexuais, nos discriminam.

            Penso que as tentativas de mudança das mentalidades deveriam começar por incidir sobre os jovens, uma vez que ocorrem muitas agressões a homossexuais em escolas. Na maioria dos casos, esta discriminação é consequência dos valores transmitidos pela família: por exemplo, se um dos pais explica ao filho que a homossexualidade é algo errado e que deve ser banida, essa ideia, ainda que errada, permanecerá no pensamento da criança como certa. Como tal, acho que os jovens constituem a camada da população que mais discrimina gays e lésbicas. Os idosos olham e comentam baixinho, para logo a seguir prosseguirem o seu caminho; os adultos actuam exactamente da mesma forma; os jovens são capazes de observar, comentar (por vezes, alto, de modo a que também a “vítima” da agressão verbal possa ouvir) e ficar a pensar no assunto, arranjando, mais tarde, maneira de nos fazer mal (aos rapazes homossexuais, principalmente através de agressões físicas e verbais; às raparigas, com tentativas maldosas de tentarem ver-nos a trocar afectos; efectivamente, muitos homens heterossexuais, quando pensam em homossexuais, consideram apenas a parte sexual: então, homem + homem = nojento/mulher + mulher = excitante).

            Concluindo, na minha opinião, hoje em dia, a discriminação em relação aos homossexuais é, infelizmente, muita. Ainda há muita gente que não se assume, receando as possíveis reacções... Eu própria não me assumo totalmente, uma vez que, por exemplo, quando passeio com a minha namorada não lhe dou a mão, não a abraço, não a beijo, porque tenho consciência de que, para a sociedade em geral, a homossexualidade representa algo errado. Obviamente que, se assim desejarmos, podemos “fazer-lhe frente” e demonstrar afectos em público, mas as coisas não são assim tão simples: não podemos adivinhar as atitudes que daí advirão e, no meu caso, a família da minha companheira é extremamente religiosa e, portanto, jamais aceitaria a nossa relação. Felizmente, nunca presenciei nenhum caso de agressão física a um homossexual, mas tenho amigos que já.

 

7.     Já alguma vez se sentiu discriminada por causa da sua orientação sexual? Fale-nos de alguma situação pela qual tenha passado.

 

            Na Madeira, não existem, pelo menos que eu tenha conhecimento, “bares gay”. Assim, quando o meu grupo de amigos (convém referir que alguns são um pouco “extravagantes” na maneira de estar, andar, falar) e eu estamos, por exemplo, num café, onde a maioria das pessoas que lá se encontra é heterossexual, por vezes, enfrentamos alguns olhares negativos e comentários pouco simpáticos...

            Com a minha namorada, ocorreu uma situação não tanto desconfortável: quando estamos juntas, muitas vezes as nossas mãos juntam-se quase que automaticamente, sem sequer nos apercebermos... Certo dia, estávamos num jardim, sentadas num banco, de mãos dadas, quando passa um senhor por nós... Ele olhou fixamente, mas continuou a andar. Daí a um bocado, voltou atrás e, mais uma vez, olhou fixamente para nós. Então, decidimos pedir-lhe, educadamente, que continuasse o seu caminho, conselho este que ele seguiu após um tempinho. Torna-se bastante difícil, quando estamos na rua, olhar em volta e ver casais e mais casais heterossexuais que se beijam e abraçam com a maior das naturalidades, enquanto nós temos que enfrentar “meio mundo” para o fazer.

 

8.     O que pensa acerca das diferentes posições religiosas relativamente à homossexualidade?

 

            Por aquilo de que me apercebo, o Cristianismo odeia homossexuais! Sei que existe uma religião que permite o casamento entre pessoas do mesmo sexo (mas não me lembro qual)...

            O meu pai é muito religioso, sendo essa uma das razões que apresento para não lhe revelar a minha orientação sexual, pois duvido muito que ele algum dia a aceitasse... A mãe da minha namorada também está grandemente ligada à religião cristã e imagino que, se soubesse que a filha mantém uma relação homossexual, seria capaz de expulsá-la de casa...

            Algo que me faz imensa confusão é o facto de, supostamente, Deus amar todos da mesma forma. Então, quem é o Homem para alterar tal pensamento? O mais engraçado é que a Igreja faz imensas críticas, ao mesmo tempo que é uma instituição com bastantes problemas a nível social: como exemplos, há padres homossexuais, divorciados, com filhos, que já tiveram relações sexuais fazendo uso do preservativo (apesar de este método contraceptivo já não ir contra as normas da Igreja, foi, durante muito tempo, proibido por ela), que aconselham o aborto...

 

9.     Como se sente relativamente ao facto de o casamento civil entre homossexuais, em Portugal, não ser permitido?

 

            Vejo esta lei como uma enorme injustiça contra a comunidade homossexual! Se amamos da mesma maneira que os casais heterossexuais, porque razão não temos os mesmos direitos? A princípio, via o casamento como o simples “assinar de um papel”, porque não me sentia minimamente interessada em casar, porém, o tempo foi passando e diversas coisas acontecendo... Então, apercebi-me que, em muitas situações, a assinatura desse tal papel pode ter muito importância (porque os homossexuais também têm sonhos e, entre eles, pode estar o de casar). Apesar de não ser possível casar em Portugal, quero fazê-lo, mesmo que isso implique a deslocação para um país onde seja permitido. No entanto, depois, infelizmente, esse casamento não será reconhecido aqui... É realmente caricato: eu posso ir casar a Espanha com uma mulher, no entanto, quando voltar a Portugal, sou novamente solteira, mas se ultrapasso a fronteira, outra vez, já sou casada...

            É importante referir, também, que a Constituição da República Portuguesa afirma que ninguém pode ser prejudicado em termos da sua orientação sexual (Ninguém pode ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual. – Artigo 13.º (Princípio da Igualdade)), porém, os homossexuais são privados de casar e adoptar crianças.

 

10.      E em relação à adopção por homossexuais não ser, também, permitida?

 

            Esta é uma questão ainda mais sensível, para a sociedade, do que a lei do casamento. Provavelmente, muitas pessoas seriam capazes de tolerar os casamentos homossexuais, contudo, a adopção por homossexuais, de maneira nenhuma! E isto porque muita gente tem a ideia de que, se dois homossexuais educam uma criança, esta será também, obrigatoriamente, homossexual... Aos indivíduos que pensam assim eu gostaria de colocar a seguinte questão: fui educada por um casal heterossexual, não tenho conhecimento de nenhum familiar meu que seja/foi homossexual, a minha família dá uma certa importância à religião... E eu sou lésbica... Podem explicar-me, então, como é possível? Isto demonstra a falsidade do preconceito que referi anteriormente.

            Eu contacto com alguns casais homossexuais que têm filhos e estas crianças são amadas e muito bem tratadas... Ou seja, um casal homossexual pode ser tão bom ou ainda melhor que um casal heterossexual a educar uma criança.

            A mudança desta lei, tal como a do casamento, passa, portanto, pela necessidade de conseguir a aceitação dos homossexuais pela generalidade da sociedade.

 

11.       O que pensa que se poderá fazer para facilitar a integração social dos homossexuais?

 

            A criação de mais grupos de apoio é muito importante. Aproveito para falar da Rede Ex-aequo, que contém vários grupos em várias cidades, organiza diversas actividades, reuniões onde é possível pedir conselhos, desabafar, conhecer pessoas que passam/passaram por situações semelhantes...

            Tenho pena que na Madeira não existam sítios onde nós, homossexuais, possamos sentir-nos mais à vontade... Não há “bares gay” nem grupos de apoio... Parece-me que havia alguém empenhado na criação de um centro comunitário, na Madeira, mas as pessoas interessadas não eram em número suficiente para ocupar todos os cargos de coordenadores que uma instituição assim implica ter.

            Quanto à sociedade, penso que acabará, mais tarde, por ver os homossexuais de uma maneira diferente... Como já me disseram: se, hoje, dermos um beijo em frente a um determinado número de pessoas, amanhã novamente, e depois também... Daqui a algum tempo, o afecto trocado por homossexuais será tão banal que as pessoas vão deixar de ver a homossexualidade como algo “diferente”.

            Também seria relevante a organização de palestras, principalmente em escolas.

 

Conclusões:

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            Após a realização desta entrevista, concluímos que a maior parte dos homossexuais já foi alvo de qualquer tipo de discriminação (verbal, física, muito ou pouco grave, cometida por familiares ou desconhecidos).

            A conversa com a entrevistada ajudou-nos a compreender que o “coming out” (revelação da orientação sexual homossexual) implica uma decisão prévia complicada, uma vez que os homossexuais receiam reacções negativas, e um conflito emocional, na medida em que grande parte da sociedade ainda explica a homossexualidade como sendo algo errado (o que leva as crianças e adolescentes homossexuais a sentirem que devem evitar tais sentimentos). Percebemos também que, maioritariamente, esta confidência se faz a amigos mais íntimos e familiares com os quais se possui uma relação melhor.

            Mais uma vez (visto ser algo que já sabíamos e confirmámos na execução da entrevista a Joana Amaral, da Associação ILGA), apreendemos que os homossexuais têm uma vida idêntica aos heterossexuais.

            Relativamente à discriminação que recai sobre a comunidade LGBT, compreendemos que a sociedade prefere, muitas vezes, encarar o que se afasta da norma como anormal, em vez de tentar perceber. Na opinião da inquirida, a discriminação em relação aos homossexuais, actualmente, é muita, sendo exercida, principalmente, pelos jovens. Na nossa opinião, também as outras camadas da população podem discriminar muito, porém, de uma forma dissimulada/silenciosa, enquanto os jovens se exprimem livremente (em alguns casos, de forma bastante perigosa e agressiva). Entendemos ainda que a família, como primeiro agente de socialização (e que educa no momento em que o indivíduo, enquanto criança, se encontra mais permeável à aquisição dos valores transmitidos), pode condicionar a ideia que as diferentes pessoas têm do que é e de como deve ser tratada a homossexualidade.

            Acerca das posições religiosas relativamente à homossexualidade, assimilámos que o Cristianismo não aceita os homossexuais (a entrevistada revelou-nos que a doutrina da Igreja prejudica a sua relação afectuosa, pois a mãe da sua namorada, muito religiosa, jamais aceitaria este namoro).

            Passámos a encarar mais fortemente a lei que proíbe o casamento homossexual como uma verdadeira injúria em relação à população homossexual, e, agora, também a vemos como uma contradição da própria Constituição da República Portuguesa, que afirma que ninguém pode ser discriminado em termos da sua orientação sexual (porém, os homossexuais são privados de constituir matrimónio e adoptar crianças).

            Apesar de sentirmos que os casais homossexuais deveriam ter o direito de adoptar crianças, permanece o nosso pensamento de que as crianças, por terem dois pais ou duas mães (e não um pai e uma mãe), poderiam sofrer insultos e gozo, uma vez que muitas pessoas ainda vêem a homossexualidade de maneira negativa.

            Por último, percebemos que a criação de mais centros comunitários e grupos de apoio é realmente útil, para que a propagação de informação positiva e o esclarecimento dos próprios homossexuais se fizessem mais facilmente.


publicado por aletra_h às 16:42
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